Essa menina vivia de esperas. Ela abria todos os dias a caixa velha de correio em frente à casa dela, uma casinha pintada de azul, com janelas brancas e amplas. Não adiantava essas janelas fazerem a luz do sol entrar se ela não as abria, o único que abria era a velha caixa de correio.
Esperava que chegasse a carta de sua vida embalada em papéis cheirando rosas e imaginava que ao abri-la encontraria uma vida cheia de euforias. Sonhava com isso todas as noites acordada, e desacordada o único que sonhava era sua solidão infeliz.
E acordava desse sonho pesadelado com um ar rarefeito, sufocante e poluído. Uma cegueira a acompanhava até a velha caixa de correio e só começava a enxergar depois de sentir que só haviam cobranças e malas diretas. Nem uma carta que pudesse abrir em su rosto sequer um pequeno sorriso.
Ela já havia idealizado tantas situações, tantos discursos, tantos gestos, tantos sorrisos. Não chegava nunca essa reciprocidade tão esperada. Afogou-se em lágrimas e soluços tantas e tantas vezes antes de agarrar-se ao salva-vidas tão insignificante. E esse salva-vidas era uma esperança restada e abandonada, que a ajudava em momentos de pânico absoluto.
Não abandonou sua solidão por nada. Só a abandonaria se recebesse essa carta. Ela já nem sabia mais de quem era... estava tão perdida e só que só era o que menos queria estar. Tentou-se a tantas tentações alheias, mas nunca encontrava um sentido nisso; parecia tudo tão turvo e tormentoso.
Essa menina não sentia mais seus pés no chão. Desligou-se de tudo; entregou-se à essa espera.
Espera. Espera. Não dá pra viver só de esperas.
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